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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Um pouco sobre a civilização Persa

As conquistas militares e a organização administrativa marcam a história dos persas.



Localizados entre o golfo Pérsico e o mar Cáspio, os persas estabeleceram uma das mais expressivas civilizações da Antiguidade no território que hoje corresponde ao Irã. Por volta de 550 a.C., um príncipe chamado Ciro realizou a dominação do Reino da Média e, assim, iniciou a formação de um próspero reinado que durou cerca de vinte e cinco anos. Nesse tempo, este habilidoso imperador também conquistou o reino da Lídia, a Fenícia, a Síria, a Palestina, as regiões gregas da Ásia Menor e a Babilônia.

O processo de expansão inaugurado por Ciro foi restabelecido pela ação do imperador Dario, que dominou as planícies do rio Indo e a Trácia. Nesse momento, dada as grandes proporções assumidas pelo território persa, este mesmo imperador viabilizou a ordenação de uma geniosa reforma administrativa. Pelas mãos de Dario, os domínios persas foram divididos em satrápias, subdivisões do território a serem controladas por um sátrapa.

O sátrapa tinha a importante tarefa de organizar a arrecadação de impostos e contava com o auxílio de um secretário-geral e um comandante militar. Para resolver os constantes problemas oriundos da cobrança de impostos, Dario estipulou a criação de uma moeda única (dárico) e a construção de um eficiente conjunto de estradas. Por meio destas, um grupo de funcionários, conhecidos como “olhos e ouvidos do rei”, fiscalizavam o volume de arrecadação de cada satrápia.

Essas ações garantiram o desenvolvimento de uma bem articulada economia baseada no comércio entre as várias cidades englobadas pelo império persa. Ao mesmo tempo, precisamos destacar que os padrões e regulamentos estabelecidos pelo próprio Estado foram responsáveis pela manutenção de um eficiente corpo administrativo e a realização de várias obras públicas. Somente após a derrota nas Guerras Médicas é que passamos a vislumbrar a desarticulação deste vasto império.

A vida religiosa da civilização persa atrai a curiosidade de muitas pessoas que se interessam pelos povos da Antiguidade Oriental. Seguidores dos ensinamentos do profeta Zoroastro, os persas possuem uma estrutura de pensamento religioso bastante próxima a de outras crenças, como o judaísmo e o cristianismo. Em suma, acreditam na oposição entre duas divindades (Mazda, o deus do Bem, e Arimã, o deus do Mal) e no fim dos tempos.

As manifestações artísticas persas foram visivelmente influenciadas pela esfera política. Em várias obras, monumentos e outras construções, há reproduções que homenageiam a vida e os importantes feitos dos reis. No campo arquitetônico, os palácios persas eram dotados por uma complexa gama de elementos de decoração e jardinagem. Segundo algumas pesquisas, os persas construíram alguns de seus palácios através da escavação de grandes rochas.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Um pouco sobre a civilização Egípcia

Como a região é formada por um deserto (Saara), o rio Nilo ganhou uma extrema importância para os egípcios. O rio era utilizado como via de transporte (através de barcos) de mercadorias e pessoas. As águas do rio Nilo também eram utilizadas para beber, pescar e fertilizar as margens, nas épocas de cheias, favorecendo a agricultura.

A sociedade egípcia estava dividida em várias camadas, sendo que o faraó era a autoridade máxima, chegando a ser considerado um deus na Terra. Sacerdotes, militares e escribas (responsáveis pela escrita) também ganharam importância na sociedade. Esta era sustentada pelo trabalho e impostos pagos por camponeses, artesãos e pequenos comerciantes. Os escravos também compunham a sociedade egípcia e, geralmente, eram pessoas capturadas em guerras.Trabalhavam muito e nada recebiam por seu trabalho, apenas água e comida.

escrita egípcia
Hieróglifos: a escrita egípcia

A escrita egípcia também foi algo importante para este povo, pois permitiu a divulgação de idéias, comunicação e controle de impostos. Existiam duas formas de escrita: a demótica (mais simplificada) e a hieroglífica (mais complexa e formada por desenhos e símbolos). As paredes internas das pirâmides eram repletas de textos que falavam sobre a vida do faraó, rezas e mensagens para espantar possíveis saqueadores. Uma espécie de papel chamado papiro, que era produzido a partir de uma planta de mesmo nome, também era utilizado para registrar os textos.

A economia egípcia era baseada principalmente na agricultura que era realizada, principalmente, nas margens férteis do rio Nilo. Os egípcios também praticavam o comércio de mercadorias e o artesanato. Os trabalhadores rurais eram constantemente convocados pelo faraó para prestarem algum tipo de trabalho em obras públicas (canais de irrigação, pirâmides, templos, diques).

A religião egípcia era repleta de mitos e crenças interessantes. Acreditavam na existência de vários deuses (muitos deles com corpo formado por parte de ser humano e parte de animal sagrado) que interferiam na vida das pessoas. As oferendas e festas em homenagem aos deuses eram muito realizadas e tinham como objetivo agradar aos seres superiores, deixando-os felizes para que ajudassem nas guerras, colheitas e momentos da vida. Cada cidade possuía deus protetor e templos religiosos em sua homenagem.

Como acreditavam na vida após a morte, mumificavam os cadáveres dos faraós colocando-os em pirâmides, com o objetivo de preservar o corpo para a vida seguinte. Esta seria definida, segundo crenças egípcias, pelo deus Osíris em seu tribunal de julgamento. O coração era pesado pelo deus da morte, que mandava para uma vida na escuridão aqueles cujo órgão estava pesado (que tiveram uma vida de atitudes ruins) e para uma outra vida boa aqueles de coração leve. Muitos animais também eram considerados sagrados pelos egípcios, de acordo com as características que apresentavam : chacal (esperteza noturna), gato (agilidade), carneiro (reprodução), jacaré (agilidade nos rios e pântanos), serpente (poder de ataque), águia (capacidade de voar), escaravelho (ligado a ressurreição).

A civilização egípcia destacou-se muito nas áreas de ciências. Desenvolveram conhecimentos importantes na área da matemática, usados na construção de pirâmides e templos. Na medicina, os procedimentos de mumificação, proporcionaram importantes conhecimentos sobre o funcionamento do corpo humano.

Matéria Exclusiva - A Guerra das Duas Rosas

GUERRA DAS ROSAS

Série de Batalhas travadas durante os reinados de Henrique VI, Eduardo IV e Ricardo III. Caracterizou-se por uma brutalidade jamais vista na história da Inglaterra. O nome dado à guerra, que foi iniciada em St. Albans (maio de 1455), deriva dos emblemas usados pelas duas casas inglesas em luta: a de York, cuja insígnia era uma rosa branca; e a de Lancaster, que usava uma rosa vermelha. A campanha começou com a imposição feita pelos senhores de York, que exigiam a demissão de um membro do conselho do Rei Henrique VI, pertencente à casa de Lancaster. O rei, embora doente e indeciso, assumiu o comando de 2.000 representantes dos Lancaster e marchou ao encontro da força armada dos iorques, que somava cerca de 3.000 homens. A batalha terminou com a dispersão do exército mais fraco, sendo o rei aprisionado pelos de York. Só em setembro de 1459 é que se deu o segundo encontro. Durante esses quatro anos de trégua aparente, Ricardo de York se manteve no poder, tendo chegado inclusive a fazer as pazes com a Rainha Margarida de Anjou, que logo depois romperia a trégua. Novamente venceram os de York, em Northampton, principalmente graças à habilidade de Warwick, chefe dos Neville e aliado de Ricardo.

Após um período de negociações, ocorreu outro conflito, em que a rainha derrotou os de York em Wakefield (1460), com um exército que trouxera do país de Gales. Ricardo morreu durante o combate. Em 1461, porém, Eduardo, o novo Duque de York, impedia a entrada dos Lancaster em Londres, aos quais derrotou em Towton, perto de York. Margarida e o rei fugiram para a Escócia. Em Westminster, Eduardo IV foi declarado rei legítimo pelo arcebispo de Cantuária e pelos Lordes, como descendente do Duque de Clarence. Margarida de Anjou resistiu inutilmente na Escócia até 1464, com o auxílio de Luís XI, rei da França.

Em 1470, Eduardo IV, perseguido por Warwick, viu-se obrigado a fugir. Foi então recolocado no trono o velho Henrique VI, que se encontrva prisioneiro na Torre de Londres. Com auxílio do Duque de Borgonha, Eduardo IV voltou no ano seguinte e derrorou Warwick em Barnet. Novamente preso, Henrique VI faleceu pouco depois. A rainha tentou reunir seus partidários em Gales, mas Eduardo surpreendeu-os em Tewkesbury, aprisionando Margarida e seu filho.

Os últimos combates da guerra foram travados entre Ricardo III, de York, e Henrique Tudor, de Lancaster, em 1485. Deles saiu vitorioso o segundo, o que levou à união das duas Rosas em uma única dinastia, assegurada depois pelo casamento de Henrique com Elizabeth de York, filha de Eduardo IV.

Materia Exclusiva - Documentos sobre as Bruxas de Salem

BRUXAS DE SALEM

Não é privilégio da Inquisição o pavor e a perseguição das pessoas acusadas de "bruxaria": Na Vila de Salem, uma Colônia da Baía de Massachustts (New England), onde hoje é a cidade de Danvers, famoso ficou o julgamento e a condenação à morte de várias pessoas acusadas de feitiçaria.

Em janeiro de 1692, Elizabeth Parris de nove anos e Abigail Willams de onze, começaram a exibir comportamento estranho, como blasfêmias, gritos, ataques apoplécticos convulsivos, estados de transe etc. Logo outras meninas de Salem começaram a demonstrar comportamento semelhante e, incapazes de determinar qualquer causa física para os sintomas e comportamentos, os médicos concluíram que as meninas estavam sob influência de Satanás.

Orações e jejuns comunitários foram organizados pelo Reverendo Samuel Parris, pai de Betty e tio de Abigail Willians. Para descobrir a identidade das bruxas, Jonh, um índio, assou um bolo feito com centeio e urina das garotas enfeitiçadas e, pressionadas para identificar a fonte de suas aflições, as meninas nomearam três mulheres, inclusive Tituba, índia escrava do Reverendo Parris, além de Sarah Good e Sarah Osborne.

Embora Osborne e Good tenham alegado inocência, Tituba confessou ter visto o Diabo, o qual aparecia para ela "as vezes como um porco e as vezes como um grande cachorro", tendo ainda Tituba testemunhado que havia uma conspiração de bruxas em Salem.

Em 1º de março, os magistrados John Hathorne e Jonathan Corwin examinaram Tituba e as outras duas mulheres na casa de reuniões de Salem. Tituba confessou a feitiçaria praticante. Nas semanas seguintes outras pessoas da cidade testemunharam que eles tinham sido prejudicados pelas bruxarias e, tendo continuado a caça às bruxas, foram feitas acusações contra diversas pessoas, principalmente mulheres cujo comportamento estava perturbando de alguma maneira a ordem social e convenções do tempo. Alguns acusados tinham registros criminais, inclusive de feitiçaria, mas outros eram devotos e pessoas consideradas na comunidade.

Martha Carey é acusada de feitiçaria em 12 de março. A enfermeira Rebecca é denunciada em 19 de março. Martha Carey foi examinada pelos magistrados em 21 de março e Rebecca em 24 de março. E seguiram-se várias acusações e exames dos supostos feiticeiros.

Abigail Hobbs, Bridget Bishop, Giles Corey, e Mary Warren foram examinados em 19 de abril. Só Abigail Hobbs confessou.

Sarah Osborne morreu na prisão de Boston em 10 de maio.

Em 27 de maio o recém chegado governador, Sir William Phips, fundou um Tribunal especial de Oyer e Terminer composto de sete juízes para julgamento dos casos de bruxaria. Compuseram o Tribunal: William Stoughton, Nathaniel Saltonstall, Bartholomew Gedney, Peter Sergeant, Samuel Sewall, Wait Still Winthrop, John Richards, John Hathorne, and Jonathan Corwin.

Os julgamentos foram baseados nas confissões, em atributos sobrenaturais como marcas etc, e com base nas reações das meninas atingidas pela bruxaria. Foi considerado inclusive que o diabo poderia assumir o aspecto de uma pessoa inocente.

Em 2 de junho Bridget Bishop foi o primeiro a ser considerado culpado e condenado à morte. Nathaniel Saltonstall abandonou o tribunal insatisfeito com seus procedimentos. Sendo Bishop enforcado em Salem em 10 de junho de 1692. Bridget Bishop: "Eu não sou nenhum bruxo. Eu sou inocente. Eu não entendo nada disso".

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Exame de uma Bruxa, de T.H. Matteson 1853.
Peabody Essex Museum

Giles Corey alegou inocência da acusação de feitiçaria, mas subseqüentemente recusou levantar-se diante do tribunal. Esta recusa significou que ele não podia ser julgado legalmente. Porém, os examinadores dele escolheram sujeitá-lo a interrogatório mediante tortura, colocando pesadas pedras em cima de seu corpo. Ele sobreviveu a esta brutal tortura durante dois dias e morreu.

Em 19 de julho Rebecca Nurse, Martha Carey, Susannah Martin, Elizabeth Howe, Sarah Good, e Sarah Wildes foram executadas.

A sentença de Martha Carey, datada de 10 de junho, informa que: "O Tribunal de Oyer e Terminer, reunido na Casa de Reuniões da Aldeia de Salem, tendo ouvido o testemunho de diversas pessoas, considerou Carey culpada do crime de 'heresia', acusada de ter ajudado e auxiliado bruxas, causado dores e sofrimentos para sua família e demais parentes; matado umas quarenta e cinco aves raras e vários suínos na Aldeia de Danvers e em suas proximidades; posto uma 'maldição do diabo' nas meninas de Parris e em Goody Laurence, causando muita doença e miséria; comido vidro quebrado..."

Segue ordem para o Xerife George Corwin "confinar Martha Carey na cadeia da prisão de Salem até 19 de julho de 1692, ocasião em que, quando o sol estiver alto, ela será executada. Dê-lhe um gorro preto e leve-a segura para a Colina da Execução em Salem e coloque-a na forca. Ela será pendurada pelo pescoço até a morte. Possa Deus perdoar sua alma má". (Documento que se encontra no Peabody Essex Museum, juntamente com outros 551 documentos, todos referentes aos julgamentos das bruxas de Salem)

Em 19 de agosto, George Jacobs, Martha Carrier, George Burroughs, John Proctor, and John Willard foram enforcados.

Margaret Scott, Mary Easty, Alice Parker, Ann, Pudeator, Wilmott Redd, Samuel Wardwell, e Mary Parker foram enforcadas em 22 de setembro.

O tribunal foi dissolvido pelo Governador Philips em 29 de outubro, depois de executadas 20 pessoas.

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"O Julgamento de George Jacobs, Agosto 5, 1692"
T.H. Matteson, 1855. Pintura a óleo.
Peabody and Esses Museum

Fontes: http://www.salemweb.com

http://www.salemwitchvillage.com

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Matéria Exclusiva - Joana D'ark

Uma silenciosa multidão ocupa a praça do mercado da cidade francesa de Ruão. Soldados impassíveis montam guarda à uma estaca, ao pé da qual outros juntam os últimos gravetos para uma fogueira. É manhã de 30 de Maio de 1431 e, dentro de alguns minutos, uma jovem que ainda não fez 20 anos, será condenada à morte pelo fogo, por ser acusada de feiticeira, herética, aliada ao demônio e impostora. A moça uma componesa da aldeia de Donrémy é trazida pelos soldados.

Enquanto à amarram a estaca ela só diz - "Tudo que fiz foi por ordem de Deus".

Ateia-se o fogo e as chamas logo sobem e envolvem seu corpo. Aos poucos, a multidão se retira: não está convencida de que a sentença fora justa, não concordam com o veredicto do tribunal eclesiástico.

Passam-se 25 anos.

A morte da jovem não é esquecida. Insistentes solicitações fazem com que a igreja reabra seu processo. E a camponesa, reabilitada de todas as acusações, torna-se a primeira heroína da nação francesa.

500 anos mais tarde, a 16 de Maio de 1920 o Papa Bento XV a proclama Santa Joana D’Arc, e agora Santa Joana.

A vida de Joana D’Arc é parte da história de uma guerra que durou cem anos, entre a França e a Inglaterra, a partir de 1337. Não se tratava propriamente de uma guerra entre dois povos constituídos em nações nitidamente diferenciadas: muitos ingleses eram normandos, isto é, franceses que chegaram à Inglaterra com Guilherme, o Conquistador, em 1066, por outro lado, muitos franceses eram bretões, isto é, ingleses habitando há muito tempo o norte da França. Seja como for os ingleses obtiveram em 1415 uma vitória decisiva, e por um tratado assinado em Troyes, metade da França passou ao seu domínio, ou melhor, para o domínio de Henrique V, rei da Inglaterra, ficando a metade francesa sob o governo de Carlos VI.

Morrendo Carlos VI, foi coroado rei da França o filho de Henrique V, um inglês portanto. Para os franceses, porém, rei mesmo era Carlos VII, filho do falecido monarca. Entre os franceses que não aceitavam o domínio inglês estava a camponesa Joana. Os pais de Joana criaram-na rigorosamente segundo os princípios da fé católica. E aos 13 anos, a menina teria tido sua primeira revelação divina: brincando com suas amiguinhas, ouviu de repente uma voz:

- "Ide e tudo será feito segundo as vossas ordens."

A partir daí, a vida de Joana mudou. Por onde andasse, as vozes acompanhavam-na, ordenando, sugerindo, encorajando:

- "É preciso expulsar os ingleses da França".

Joana acreditou na voz e na ordem. E dirigiu-se a Vaucouleurs. Ao capitão que a recebeu, a mocinha disse:

- "Deus fez-me ouvir Sua voz e ordenou que eu salvasse a França. Devo falar já ao rei; peço-vos que me acompanhe à sua presença".

O capitão Roberto de Baudricourt, não ficou nada entusiasmado: essa menina ou era louca ou mentirosa. Mas a jovem insistiu com tanto ardor, que o capitão se convenceu. E decidiu leva-la ao rei em Chinon. Carlos VII, ao saber do caso decidiu pôr Joana à prova. Na hora marcada para a entrevista, vestiu outras roupas e fez um de seus ministros sentar-se ao trono. Joana entra.

- "Eis o rei", dizem-lhe indicando o ministro. Joana sequer o olha. Atravessa todo o salão, para diante do verdadeiro rei e diz:

- "Em nome de Deus, sois vos o rei! Se fizerdes como ordenarei, os ingleses serão expulsos e vós serei reconhecido por todos como o rei da França".

Abismado, Carlos VII sentiu o milagre. Pouco depois nomeou Joana comandante do exercito francês. Era o ano de 1429. Joana D’Arc tinha 18 anos.

Do riso à derrota.

- "Voltai a vosso país. Deus assim o quuer! O reino da França não vos cabe, mas a Carlos! Eu sou enviada de Deus e minha tarefa é expulsar-vos daqui! Deus me dará a força necessária para repelir vossos ataques!".

Os soldados ingleses acampados às portas da cidade de Orléans (que sitiavam havia a seis meses), caíram na gargalhada ao ouvir tal discurso. Joana não se abalou e ordenou ao exercito francês que atacasse. O povo de Orléans que vivia oprimido e aterrorizado, criou animo novo e lançou-se à luta. Orléans, e depois a França inteira, tinha encontrado um líder, uma heroína. Após 3 dias de luta, os ingleses recuaram. Orléans estava livre. Outra cidade importante, Reims, cairia logo a seguir em poder dos franceses. Carlos VII, agora reconhecido legítimo rei da França, foi coroado e consagrado a 17 de Julho de 1429 na catedral de Reims.

Os ingleses, porém, não tinham sido totalmente expulsos. E Joana decidiu continuar a guerra, Aí se desenhou a tragédia de seu destino. Na batalha de Compiègue, perto de Paris, adversários franceses de Carlos VII conseguiram prendê-la e entregaram-na aos ingleses. Era o momento da vingança. Organizou-se um tribunal eclesiástico francês em Rouen, que acusou Joana de herege e praticante de magia negra. Disseram que ela era bruxa tomada pelo Diabo. Explicam-se as acusações: era preciso mostrar Joana ao povo, não como heroína, mas como uma espécie de anticristo. O processo foi longo e penoso. Joana negou todas as acusações:

- "Tudo que fiz foi por ordem de Deus"... insistia.

Sua firmeza foi inútil. A sentença – condenada à morte – foi promulgada. E cumprida. Ninguém socorreu a moça: Carlos VII estava muito preocupado com questões políticas internas para ajudar a quem havia salvo seu reino.

Joana D’Arc morreu, mas sua curta carreira militar, sua figura fantástica, criaram no povo francês uma consciência nacional. Os poucos anos em que a humilde camponesa se viu envolvida em tão longo conflito marcaram o fim das pretensões territoriais inglesas na França e o começo – a partir de Carlos VII – de uma longa linhagem de reis franceses. A donzela de Orléans, movida por inspiração divina e plena de uma extraordinária coragem, tinha ajudado a criar um Estado nacional, pagando por isso com o sacrifício da própria vida.

Fonte: Enciclopédia Conhecer – Abril Cultural

Volume I – Páginas 74 e 75.

Texto extraído na integra.

A mensageira de Deus que morreu acusada de adorar o demônio...

terça-feira, 18 de março de 2008

Especial - Grécia

Deuses e Mitos na Vida dos Gregos

O espaço dos deuses na vida dos gregos

Para muitos povos, a religião, através dos valores transmitidos por suas crenças e das práticas que realizam em seus rituais, organiza a vida da sociedade. E assim era entre os gregos.

Na nossa sociedade, uma mesma religião muitas vezes não atinge um povo inteiro, mas somente parte dele. Assim, num mesmo país é possível haver várias comunidades religiosas distintas, cada uma com seu sistema de crenças e ritos. Na cidade de São Paulo, por exemplo, podemos encontrar católicos, protestantes de orientações diversas, testemunhas-de-jeová, umbandistas, espíritas, etc. Todas essas comunidades freqüentemente fazem parte de uma rede maior, muitas vezes com uma sede central em algum lugar específico. Por exemplo, os católicos romanos de todas as cidades onde eles existem constituem uma comunidade mundial com sede em Roma.

Na Grécia Antiga, as várias cidades-estados eram parte de uma mesma comunidade religiosa: tinham as mesmas crenças e rituais, tanto que se faziam representar num santuário comum, Delfos, e se uniam para rituais, como, por exemplo, os que aconteciam nas festas pan-helênicas, como as Olimpíadas.

A religião, em todos os seus aspectos, diz respeito ao universo sagrado, ou seja, aquele que ultrapassa os poderes e as virtudes humanas, que as transcende e que contém verdades absolutas. O conteúdo desse universo sagrado são as divindades e seus poderes, os mitos e lendas. Para que o universo profano (não sagrado) entre em contato com o sagrado é preciso realizar uma série de ações significativas, os rituais, praticados segundo o conhecimento da tradição religiosa, transmitido por pessoas que tiveram a incumbência de guardá-lo e ensiná-lo às gerações seguintes.

Entre os gregos, a tradição religiosa era transmitida oralmente por poetas como Homero e Hesíodo, que viveram entre os séculos IX a.C. e VIII a.C., inspirados por divindades ligadas à música e à poesia, as Musas. Seus relatos foram retomados por dramaturgos dos séculos V a.C. e IV a.C.

As divindades

A religião cristã crê em um único deus, sendo considerada monoteísta, mas apesar disso mantém um conjunto de cultos independentes e ao mesmo tempo interligados, que dão conta dos vários aspectos da vida humana, através das devoções e rituais ligados aos muitos santos.

Entre os gregos, a religião era politeísta, ou seja, eram vários os deuses em que acreditavam e que davam origem a diversas crenças, cultos e práticas religiosas.

Os fenômenos da natureza, entre os gregos, às vezes eram divindades, como a Noite, outras vezes estavam estreitamente ligados aos deuses. O relâmpago, por exemplo, era resultado da ação de Zeus, e por isso os lugares atingidos pelos raios eram considerados sagrados, diferenciados dos outros lugares em que não havia manifestação dos deuses, os lugares comuns, ou profanos. Os gregos acreditavam que a água causava os tremores de terra e, como tudo o que se relacionava à água era relativo a Posêidon, então o deus do mar era chamado sacudidos de terra.

As almas dos antepassados também eram cultuadas pelas famílias, através de uma série de rituais que ficavam a cargo das mulheres.

Havia ainda os seres imortais, com poderes extraordinários e considerados deuses; alguns eram originários de tradições de outros povos. Deméter, por exemplo, deusa da terra, se assemelhava às antigas deusas da fertilidade, comuns no período Neolítico; Afrodite, deusa do amor, seria uma deusa da tradição mesopotâmica, Astarté; Dioniso e Hefesto teriam vindo do Oriente, da Índia.

Acreditava-se que esses deuses habitavam o monte Olimpo, na Tessália, embora algumas versões localizassem sua morada no céu. São doze os principais: Zeus, deus do trovão, o mais poderoso dos deuses, o que voa; Hera, sua esposa; Posêidon, deus dos mares, o que treme a terra; Deméter, deusa da fertilidade da terra; Apolo, deus da música; Atena, deusa da sabedoria; Afrodite, deusa do amor; Hefesto, deus do fogo e da metalurgia; Ares, deus da guerra; Hermes, o deus mensageiro; Ártemis, deusa caçadora; Héstia, deusa dos lares. Havia outros deuses tão importantes quanto esses, e que às vezes figuravam entre os doze deuses do Olimpo: Plutão ou Hades, senhor do reino dos mortos, e Dioniso, deus do vinho, da euforia, ou ainda Hebe, deusa da juventude.

Os mitos

Atualmente, a compreensão do valor dos deuses gregos é possível através dos relatos contidos nos mitos, que são narrações de verdades essenciais para a compreensão da natureza, do universo, do ser humano e da sociedade. Ao conjunto de mitos dá-se o nome de mitologia, que constitui a memória de uma soma de valores e de uma espécie de conhecimento.

O mito da origem do mundo

A narrativa da origem do mundo, segundo os gregos, a partir da versão de Hesíodo, no poema Teogonia (isto é, "nascimento dos deuses"), é o texto que transcrevemos.

Primeiro nasceu Caos, a existência indistinta; depois nasceram a Terra (Gaia) e Eros. [...] Caos gerou a Noite, que gerou o Dia. A Terra gerou o Céu (Urano), as Montanhas e o Mar; uniu-se ao Céu (Urano) e gerou os Titãs, Réia, Têmis, Memória, os Ciclopes, fabricantes do raio, os Gigantes, de cinqüenta cabeças e cem braços, e Cronos, o tempo.

[...] Guiados por Eros, os deuses se reproduzem: há os filhos da Noite, entre os quais estão a Morte, o Sono, os Sonhos e as Parcas, divindades do destino, de cujos desígnios nem os deuses escapavam, que eram três: Fiandeira, Distribuidora e Inflexível; e a linhagem do Mar. Nereu e as várias Nereidas, suas filhas, Espanto, Ceto, entre vários outros.[...]

O Céu (Urano) detestava os filhos, e escondia-os na Terra; até que ela, atulhada, criou uma foice e deu-a a seus filhos, para que castrassem o pai. Todos ficaram com medo, mas Cronos aceitou a missão, e, ao entardecer, quando o Céu se deitava junto com a Terra, a cumpriu. [...] A partir daí começa o domínio da segunda geração de deuses, encabeçados por Cronos. Cronos sabia que ia ter um destino semelhante ao do seu pai, ser destronado por um de seus filhos; então os engolia à medida que iam nascendo do ventre de Réia. Foi assim com Hera, Deméter, Héstia, Hades e Posêidon; quando Zeus nasceu, Réia deu uma pedra para Cronos engolir e escondeu o filho, que cresceu e cumpriu o destino de destronar o pai. Como ele fez isso não é dito, mas fez Cronos vomitar seus irmãos. Depois disso, aliado aos outros deuses e aos Gigantes, derrotou os Titãs numa guerra terrível, na qual os deuses se aliaram aos Gigantes, filhos da Terra.

O domínio de Zeus marca a terceira geração de deuses. Ele repartiu o mundo com seus irmãos. Posêidon ficou com os mares, Hades com o mundo subterrâneo, e a ele próprio coube o céu. Essa geração também teve muitos filhos. De Zeus e Deméter nasceu Perséfone: de sua união com Memória nasceram as Musas; com Leto, Apolo e Ártemis; com Hera, Ares, Hebe e Ílitia; com Maia, Hermes; com Sêmele, Dioniso. Mas a primeira esposa de Zeus, Métis, a astúcia, foi engolida por ele, porque estava destinada a dar à luz dois filhos: um era Atena, e o outro seria aquele que destronaria seu pai. Zeus engoliu Métis e ficou astucioso, e gerou Palas Atena, que nasceu de sua cabeça.

(Hesíodo, Teogonia)

Assim como a do mundo, a origem do homem é relatada por inúmeros mitos que falam de seus antepassados: em algumas regiões eram considerados filhos da Terra, em outras eram formigas transformadas, ou seres feitos a partir do barro ou da areia.

Num fragmento atribuído a Hesíodo, encontra-se uma história sobre a origem dos habitantes da ilha de Egina, segundo a qual a deusa Egina teve um filho com Zeus, Éaco, que ficou inteiramente só na ilha. Ao tornar-se adulto, a solidão o aborrecia. Para acabar com essa solidão, Zeus converteu as formigas da ilha em homens e mulheres, concedendo a Éaco um povo chamado urirmidões.

Havia também mitos sobre relações entre pais e filhos. Um exemplo é o mito de Édipo, que foi tratado pelo dramaturgo Sófocles na tragédia Édipo-Rei.

Édipo era filho do rei de Tebas, Laio, e sem saber matou seu próprio pai, casando-se com sua mãe, Jocasta, que ele não conhecia. Tudo isso aconteceu porque quando Édipo nasceu seus pais foram informados de uma profecia que relatava seu destino. Para evitá-lo, ordenaram a um criado que matasse o menino. Porém, penalizado com a sorte de Édipo, ele o entregou a um casal de camponeses que morava longe de Tebas para que o criassem. Édipo soube da profecia quando se tornou adulto. Saiu então da casa de seus pais adotivos para evitar a tragédia, ignorando que aqueles não eram seus legítimos genitores. Eis que, perambulando pelos caminhos da Grécia, encontrou-se com Laio e seu séquito, que, insolentemente, ordenou que saísse da estrada. Édipo reagiu e matou os integrantes do grupo, sem saber que estava matando seu verdadeiro pai.

Continuou a viagem até chegar a Tebas, dominada por uma Esfinge, que devorava as pessoas que não decifrassem seu enigma: “Qual o animal que anda com quatro patas ao amanhecer, duas ao meio dia e três ao entardecer?”. Édipo decifrou o enigma, respondendo: o homem. A Esfinge morreu, Édipo tornou-se herói de Tebas e casou-se com a rainha, Jocasta, a mãe que desconhecia.

Esse mito grego foi relido pelo psicanalista austríaco Freud, que nele encontrou pistas para elaborar suas idéias acerca da relação dos filhos com o genitor do sexo oposto.

Assim como são vários os mitos sobre a relação entre os homens, também são muitos os que dizem respeito à relação entre os deuses e os homens. Um deles, por exemplo, é o de Prometeu, outro é o de Pandora.

Prometeu era um titã, portanto, descendente de Urano, como Cronos, e derrotado por Zeus, conforme a história de Hesíodo. Titãs, segundo o mesmo Hesíodo, seriam “aqueles que por presunção teriam tentado realizar uma grande obra porém foram punidos”. Essa grande obra foi partilhar a audácia do plano divino com os homens. O que aconteceu da seguinte maneira:

O titã Jápeto, irmão de Cronos, tinha dois filhos que se tornaram o elo entre os deuses e os humanos: Prometeu (que quer dizer “o astuto”) e Epimeteu (que quer dizer “o que só aprende depois do erro”). Segundo Platão, depois que os deuses fizeram as criaturas com uma mistura de terra e fogo, deram aos irmãos Prometeu e Epimeteu a incumbência de dar a cada uma delas a capacidade que lhe fosse mais adequada. Para essa tarefa eles tinham um certo prazo, ao fim do qual as criaturas sairiam das trevas do centro da terra para a luz. Eles combinaram que Epimeteu faria o serviço e Prometeu o verificaria. E assim foi feito. Epimeteu distribuiu força, alimentos, velocidade, proteção a todos, de tal forma que as criaturas pudessem sobreviver; no entanto, deixou o homem nu, sem nenhum atributo que o protegesse. Quando Prometeu foi verificar o trabalho de seu irmão, percebeu perplexo a situação do homem. Resolveu roubar as artes de Hefesto e Atena - a metalurgia e a tecelagem - e o fogo, que deram ao homem a sabedoria e as condições para enfrentar os problemas da vida cotidiana. Por isso os homens têm uma maior proximidade com os deuses do que as outras criaturas. Mas também por isso Prometeu foi castigado.

Ficou acorrentado por trinta mil anos no pico mais alto do Cáucaso, tendo o fígado picado por um pássaro, até que Hércules, o semideus filho de Zeus, o libertou. Segundo alguns, sua libertação deveu-se ao fato de Zeus querer tornar seu filho famoso, porém outros interpretam-na como recompensa por Prometeu ter guardado o segredo da deposição de Zeus.

Segundo as várias versões da história de Prometeu, sua libertação exigiu que ele deixasse um outro imortal sofrendo em seu lugar. Quem tomou para si o sofrimento de Prometeu foi o centauro Quíron, que fora ferido acidentalmente por Hércules. Quíron passou a ser identificado com a invenção da arte de curar.

O mito da criação da mulher

A primeira mulher surgiu como uma represália de Zeus contra o roubo do fogo por Prometeu, segundo o relato de Hesíodo:

Filho de Jápeto, sobre todos hábil em tuas tramas,/apraz-te furtar o fogo fraudando-me as entranhas;/grande praga para ti e para os homens vindouros!/Para esses em lugar do fogo eu darei um mal e/todos se alegrarão no ânimo, mimando muito este mal.

Disse assim e gargalhou o pai dos homens e dos deuses;/ ordenou então ao ínclito Hefesto muito velozmente/terra à água misturar e aí pôr humana voz e/força, e assemelhar de rosto às deusas imortais/esta bela e deleitável forma de virgem; e a Atena/ensinar os trabalhos [...]/ em seu peito, Hermes Mensageiro[...]/mentiras, sedutoras palavras e dissimulada conduta/forjou, por desígnios de Zeus. [...] E a esta mulher chamou /Pandora porque todos os que têm olímpica morada/deram-lhe um dom, um mal aos homens que comem pão.

(Hesíodo, Os trabalhos e os dias.)

Essa mulher foi dada de presente ao irmão de Prometeu, Epimeteu (o que vê depois), e trouxe consigo, em uma caixa (em algumas versões, num jarro), todos os dons maléficos que os deuses lhe deram. Proibiu-lhe abri-Ia, mas ele, cada vez mais curioso, não agüentou e, vendo-se sozinho, abriu-a. De dentro saíram as doenças, as infelicidades, todos os males que os homens não conheciam até então. Desde esse dia os homens passaram a sofrer, e os longos e despreocupados festins que tinham com os deuses nunca mais aconteceram.

As mudanças da humanidade do ponto de crista da mitologia

As sociedades antigas imaginavam que ao longo do tempo as formas de vida da humanidade, sempre ligadas aos deuses, sofriam transformações. Dividiam, assim, o tempo em épocas que em geral demonstravam uma degradação nas condições de vida. E muito freqüente encontrarmos quatro épocas entre os gregos. Porém, segundo o que nos conta Hesíodo, até enquanto viveu, houve cinco épocas ou raças. A raça de ouro, a raça de prata, a raça de bronze, a raça dos heróis e a raça de ferro.

A raça de ouro não tinha nenhum problema característico da humanidade: dor, sofrimento, tristeza e penúria. Terminou porque não temia os deuses, e por isso foi destruída.

A raça de prata era uma raça inferior, que vivia na infância por longo tempo e quando chegava à adolescência sofria muito, por insensatez e por excesso. Nada a continha, nem o respeito aos deuses. Por isso, Zeus a escondeu sob a Terra para que não o desonrasse.


A raça de bronze era terrível e forte como o bronze, e matou-se a si mesma.

A raça dos heróis:

[...] raça divina de homens e heróis e são chamados semideuses, geração anterior à nossa na terra sem fim. A estes a guerra má e o grito temível da tribo a uns [...] fizeram perecer pelos rebanhos de Édipo combatendo, e a outros, embarcados para além do grande mar abissal, a Tróia lavaram por causa de Helena de belos cabelos, ali certamente remate de morte os envolveu todos e longe dos humanos, dando-lhes sustento e morada Zeus Cronida Pai nos confins da terra os confinou.[...]

A raça de ferro:

Antes não estivesse eu entre os homens da quinta raça, mais cedo tivesse morrido ou nascido depois. Pois agora é a raça de ferro e nunca durante o dia cessarão de labutar e penar e, nem à noite de se destruir; e árduas angústias os deuses lhes darão. Entretanto a esses males bens estarão misturados. Também esta raça de homens mortais Zeus destruirá, no momento em que nascerem com têmporas encanecidas. [...] vão desonrar os pais tão logo estes envelheçam e vão censurá-los, com palavras duras insultando-os; cruéis; sem conhecer o olhar dos deuses e sem poder retribuir aos velhos pais os alimentos; [...] a todos os homens miseráveis a inveja acompanhará, ela, malsonante, malevolente, maliciosa ao olhar. Então, ao Olimpo, da terra de amplos caminhos, com os belos corpos envoltos em alvos véus, à tribo dos imortais irão, abandonando os homens, Respeito e Retribuição; e tristes pesares vão deixar aos homens mortais. Contra o mal força não haverá!

(Hesíodo, Os trabalhos e os dias.)

Quanto à vida depois da morte, os gregos acreditavam que a morada dos mortos era o Hades, domínio do irmão de Zeus, Plutão. Localizava-se nos subterrâneos, rodeado de rios, que só poderiam ser atravessados pelos mortos. Os mortos conservavam a forma humana, mas não tinham corpo, não se podia tocá-los. O Hades tinha uma espécie de cão de guarda, o terrível Cérbero de três cabeças. Os mortos vagavam pelo Hades, mas também apareciam no local do sepultamento. Havia rituais cuidadosos nos enterros, e os mortos eram cultuados, principalmente pelas famílias em suas casas.

Também havia a ilha dos bem-aventurados, um local de eterno prazer, reservado aos heróis, que eram criaturas especiais, às vezes humanos consagrados por atos de extrema bravura; outras vezes semideuses, filhos de deuses e humanos, que também tinham realizado grandes feitos.

Cultos ou rituais

As divindades gregas, como as de todas as religiões, são consideradas seres dotados de consciência como o homem, porém com poderes superiores aos humanos. Uma vez que as divindades são seres conscientes, os homens pretendem relacionar-se com tal poder superior atingindo suas consciências da mesma forma como fazem entre si: através de laços afetivos e de trocas, que se realizam por sacrifícios, preces, oferendas e por sistemas de consultas, - os oráculos -, que muitas vezes são realizadas nos templos.

Os sacrifícios

Os sacrifícios eram uma forma de repetir os banquetes dos deuses com os homens, quando ambos partilhavam da vítima do sacrifício, seguindo um ritual no qual um animal doméstico era conduzido em procissão, ao som de flautas, até o altar exterior do templo; os participantes e o animal eram ornados com coroas de flores. A solenidade acontecia no exterior do templo, e poucos podiam nele entrar, pois era a casa do deus. Acreditavam que o deus efetivamente morava ali, senão sempre, pelo menos de vez em quando.

No altar, o animal era morto, depois aberto para que os sacerdotes lessem nas suas entranhas, especialmente no fígado, uma mensagem que mostrasse a disposição dos deuses. Se ela fosse favorável, os ossos do animal, envoltos em gordura, eram postos no fogo, junto com ervas aromáticas, e a fumaça subia aos deuses. Certas carnes eram assadas no mesmo fogo do altar e comidas pelos participantes; o restante da carne do animal era cozido e dividido em partes iguais para ser consumido dentro ou fora do templo, por alguns ou por todos os participantes da cerimônia. Alguns pedaços eram reservados ao sacerdote que presidia a cerimônia. Qualquer cidadão podia exercer essa função.

O ritual em geral era esse que foi descrito, mas havia variações. Em algumas ocasiões eram oferecidos frutos e cereais, sem que houvesse carne ou sangue na cerimônia. Outros sacrifícios exigiam a queima total da vítima; eram chamados holocaustos, e geralmente serviam para aplacar a cólera de divindades terríveis, como Deméter ou Hades. Essas variações no rito aconteciam conforme o tempo e o lugar.

Os oráculos

Entre os gregos havia templos dedicados aos vários deuses, e em alguns deles existiam oráculos, sistemas de interpretação da sabedoria dos deuses, que se comunicavam com os homens que vinham pedir conselhos ou saber do futuro. Muitas vezes a consulta não era pessoal, envolvia uma cidade inteira, sobretudo em épocas de guerra ou de peste.

As maneiras de os deuses responderem às perguntas variavam. Por exemplo, em Delfos, no oráculo de Apolo, o deus respondia pela boca de uma sacerdotisa, a Pítia ou Pitonisa, que entrava em transe e incorporava o deus, mais ou menos como os filhos-de-santo nos terreiros de umbanda e candomblé. Em outros templos, o homem podia ocupar a função de intermediário entre os homens e os deuses. Um exemplo disso era o que ocorria no oráculo de Zeus, em Dodona, onde sacerdotes interpretavam o balançar das folhas dos carvalhos sagrados como a fala do deus.

A consulta ao oráculo era uma ocasião solene, como uma visita ao próprio deus, e exigia vários rituais, como podemos ler neste relato de Pausânias, que descreveu, em suas viagens pela Grécia, como era o oráculo de Trofônio, uma divindade local absorvida por Zeus.

O que acontece no oráculo é o seguinte: quando uma pessoa está decidida a descer ao oráculo de Trofônio, deve se alojar num certo lugar por alguns dias. Nesse tempo, entre outras regras para a purificação, se abstém de banhos quentes, banhando-se apenas no rio Hercyna. Deve sacrificar a Trofônio, a Apolo, a Cronos, a Zeus rei, a Hera do carro e a Deméter Europa. Nos sacrifícios um adivinho está presente, e olha nas entranhas da vítima para ver se Trofônio vai receber a pessoa que desce. A melhor vítima para revelar a disposição de Trofônio é uma ovelha, sacrificada por aquele que procura o oráculo na noite em que desce, invocando

Agamedes, parceiro de Trofônio. Se as entranhas da ovelha indicarem, ele pode ir. Primeiro ele é levado ao rio Hercyna por dois meninos de treze anos, que o banham. Depois é levado por sacerdotes até algumas fontes, das quais ele deve beber a água do esquecimento e da memória, para se livrar de seus pensamentos e para se lembrar do que acontecer durante sua descida ao oráculo. Há uma imagem que só é mostrada aos que vão visitar o deus, que é então reverenciada. Daí se pode entrar no oráculo, que fica numa caverna na montanha, na qual se entra por uma escada. Lá dentro, o suplicante encontra um buraco, no qual deve entrar passando primeiro os pés. Depois que seus joelhos passam ele é puxado como que por um fio. Lá dentro fica sabendo do futuro, ouvindo ou vendo, conforme o caso. Quando volta, é levado pela mão dos sacerdotes até a cadeira da memória, onde conta tudo aquilo que soube pelo oráculo. Depois é levado ao alojamento, paralisado pelo terror. Gradualmente vai melhorando, e recupera a faculdade de rir. [...] O que eu conto não é de ouvir dizer; eu mesmo consultei o oráculo de Trofônio.

(Pausânias.)

Além dos oráculos, os gregos acreditavam em presságios, sinais significativos que eram interpretados como um aviso dos deuses, como o vôo das aves, que em certas ocasiões eram identificados como bons ou maus. Na Guerra de Tróia, por exemplo, os troianos foram intimidados por uma águia que voava com uma serpente nas suas garras, ensangüentada, ainda viva, que picou a ave perto do pescoço, e eles acreditaram que era um presságio de Zeus.

Os mistérios

Os mistérios eram celebrações secretas e tinham o objetivo de proporcionar ao iniciado uma vida melhor, após a morte. Os mais famosos eram realizados em Elêusis, perto de Atenas, e eram consagrados a Deméter, mas também havia mistérios consagrados a Mitra e a Ísis (divindades estrangeiras) e a

Dioniso. Como era proibido ao iniciado revelar suas experiências nesses rituais, muito se imagina sobre eles, mas pouco se sabe, pois as descrições só fazem alusões e não descrevem exatamente como eram os rituais.

Pausânias narra um culto de mistério:

[...] À direita, saindo do templo, há um espelho na parede. Quem olha nele não se vê, ou vê uma imagem muito pequena, enquanto que os deuses (as estátuas do templo) podem ser vistos claramente. Mais à frente é o lugar onde os arcádicos celebram os mistérios, e sacrificam à Amante muitas vítimas. Mas eles não cortam a garganta das vítimas, como nos outros sacrifícios; cada um corta um membro da vítima, ao acaso. A essa Amante os arcádios cultuam mais do que a qualquer outro deus, e dizem que é filha de Deméter e Posêidon. Amante é o seu apelido, assim como Virgem é apelido da filha de Deméter e Zeus. Mas, enquanto se sabe que o nome da Virgem é Perséfone, o nome da Amante eu temo revelar para os não iniciados. Mais além, há o santuário da Amante, cercado por um muro de pedra; dentro crescem, de uma só raiz, um carvalho e uma oliveira sempre verdes. Há também um altar a Posêidon cavalo, e aos outros deuses também. No último deles há uma inscrição que diz que aquele é um altar comum a todos os deuses.

(Pausânias)

O convívio de deuses e homens na vida da cidade

As festas

As festas eram sempre ocasiões de relação com os deuses. As Panatenéias, festas em homenagem a Atena, realizadas todos os anos, começavam com uma procissão que partia do bairro dos ceramistas (o Cerâmico) e atravessava o centro de Atenas para levar solenemente à Acrópole o peplo (manto), bordado todos os anos por jovens previamente escolhidas. Ele se destinava a vestir a estátua do culto de Atena. Os sacerdotes e todos os grupos sociais da cidade, incluindo os representantes dos metecos, formavam um longo cortejo cuidadosamente ordenado e acompanhado por efebos a cavalo. Chegando à Acrópole, sacrificavam quatro bois e quatro carneiros, diante do velho templo de Atena; depois, tantas vacas quantas fossem necessárias para alimentar toda a gente da cidade.

Havia, ainda, festas em honra de Apolo, as Pianépsias, ou festas das sementeiras, quando se ofereciam ao deus um prato de favas e vários outros legumes, misturados com farinha de trigo. Depois levavam em procissão um ramo de oliveira envolvido em lã e carregado de frutos da primeira safra, o que consideravam um talismã de fertilidade.

Nessas festas de significado estritamente religioso, havia concursos que possibilitavam o exercício da excelência, o que os gregos chamavam de areté, em várias atividades: atlética, lírica, musical, dramática (tragédia ou comédia). Até a beleza física era motivo de competição nos concursos de beleza, tanto entre mulheres como entre homens. Os prêmios eram simbólicos, do ponto de vista material: a grande recompensa do vitorioso era receber honras de herói. Nas Panatenéias, por exemplo, o prêmio do atleta vencedor da corrida com archotes era o azeite das oliveiras sagradas de Atena, em ânforas chamadas panatenaicas, cuja decoração incluía: de um lado, Atena Promacos (a que combate na primeira fila) de pé, entre duas colunas; e, de outro, a representação do concurso pelo qual o prêmio foi concedido.

Um concurso que só ocorria em festivais era o de teatro, sempre presidido por um sacerdote do culto a Dioniso. Os festivais eram as únicas ocasiões em que havia representações dramáticas, que tinham sempre o intuito de mostrar a conduta humana e refletir sobre ela. Havia três gêneros de espetáculos teatrais: as tragédias, as sátiras e as comédias.

As tragédias apontavam as conseqüências terríveis de um comportamento desmedido, ao qual davam o nome de hybris. As sátiras e as comédias também tinham função educativa, apontando o ridículo da condição humana através de personagens estereotipados e ridículos. Podemos encontrar um exemplo nos personagens de Aristófanes, em As Nuvens, e ainda os dramas satíricos. As tragédias se diferenciavam das comédias e das sátiras não só pelo sentido do texto, mas pelas máscaras e roupas específicas usadas pelos atores, bem como pela linguagem utilizada - enquanto a tragédia exigia uma linguagem elevada, a comédia permitia o uso de palavrões.

Intrigas e paixões dos deuses entre si e pelos homens

Apesar de os deuses terem poderes incríveis - voar pela Grécia, dominar as forças da natureza, a imortalidade -, eles eram muito parecidos com os humanos nas suas emoções: raiva, ciúme, tristeza, amor, desejo, alegria, eram sentimentos compartilhados com os homens. Constantemente se apresentavam aos mortais sob forma humana, por eles se apaixonavam e com eles tinham filhos, gerando os semideuses.

Os deuses, como os homens, eram ambiciosos e intrigantes: muitos templos eram construídos em cada cidade, porém apenas um deus poderia ter o encargo de ser seu patrono. Os deuses podiam ter várias cidades sob sua proteção, o que era motivo de disputa entre eles.

Uma outra ocasião em que exercitavam suas raivas era nas guerras entre os homens, nas quais tomavam partido. Na Guerra de Tróia, por exemplo, quando os gregos chefiados por Agamêmnon foram resgatar Helena, raptada por Páris num ato de traição, alguns deuses apoiaram os gregos e outros apoiaram os troianos.

Todos os deuses estavam reunidos; brindavam com as taças de ouro enquanto contemplavam a cidade dos troianos.

Zeus disse: - Duas deusas protegem Menelau, Hera e Atena. Ao adversário de Menelau (Enéas), Afrodite ajuda; ainda hoje o livrou da morte. Todavia, a vitória cabe a Menelau, amado de Ares. Deliberemos sobre o desfecho desse caso: incitaremos a guerra terrível ou lançaremos a paz sobre os dois povos? Hera, furiosa, disse: - Queres então anular os meus esforços? Faz como entenderdes, mas nem todos nós, os outros deuses, te aprovaremos. [...] Foi então que Palas Atena deu um ardor e audácia ao filho de Tideu, Diomedes [...], e empurrou-o para o meio, para o ponto mais cerrado do tumulto. [...]

Ora, Diomedes perseguia Cípris (Afrodite) com o bronze impiedoso. Sabia que ela era uma deusa sem bravura [...]. Quando a alcançou, feriu-a na mão. Correu então o sangue divino da deusa [...] e ela soltou um grande grito [...].

Diomedes gritou-lhe: - Filha de Zeus, abandona a guerra e o morticínio. Não basta que seduzas mulheres sem valor? Se voltares à guerra, penso que a guerra te fará arrepiar, mesmo que te limites a assistir. [...]

Atena disse: - Filho de Tideu, Diomedes, não temas, nesta ocorrência, nem Ares nem qualquer outro imortal, tão grande é minha ajuda. [...] Quando Ares, flagelo dos humanos, viu Diomedes, foi direto a ele; tentou atingi-lo, mas Atena desviou o golpe; Diomedes tirou sua lança, e Atena reforçou o golpe, atingiu o deus. Ares então gritou como dez mil homens, e subiu para os céus para se lamentar com Zeus, que respondeu: - Não venhas te lamentar. Tenho-te como o mais odioso dos deuses, pois só te comprazes na discórdia.

(Homero, Ilíada.)

Além dos amores e emoções, os deuses tinham outras qualidades humanas; o espaço da mulher, na sociedade da pólis, por exemplo, era o mesmo que o da deusa Héstia, e o dos homens correspondia ao do deus Hermes, como foi visto no capítulo anterior. Da mesma forma, todos os artesãos eram identificados a Hefesto (o deus ferreiro), os navegantes a Posêidon, os guerreiros a Ares, os reis a Zeus, e assim por diante.

Os deuses também tinham uma vida política semelhante à dos homens: as decisões de Zeus eram comunicadas e discutidas em assembléia.

Segundo um relato de Homero, Zeus convocou uma assembléia para comunicar sua decisão sobre a Guerra de Tróia.

Zeus, do alto do Olimpo, ordenou a Têmis que chamasse os deuses à Assembléia. [...] Não faltou sequer um dos rios, sequer uma das ninfas que habitam as florestas e as nascentes dos rios; Aquele que sacode a terra também veio, e perguntou: Por que, ó Fulminante, chamas de novo os deuses à Assembléia? Será por causa dos troianos e dos aqueus? Zeus respondeu: Sim, foi por isso; preocupo-me com esses homens. Vou ficar sentado no Olimpo, e assistir à batalha como a um espetáculo; vão vocês, os outros deuses, ajudar um dos dois partidos, cada um conforme sua idéia [...].

(Homero, Ilíada)

segunda-feira, 17 de março de 2008

Matéria Exclusiva - O Império Romano

IMPÉRIO ROMANO
(27 a.C. a 476 d.C.)

Depois de um século de lutas civis, o mundo romano estava desejoso de paz. Octavius Augustus se encontrou na situação daquele que detém o poder absoluto num imenso império com suas províncias pacificadas e em cuja capital a aristocracia se encontrava exausta e debilitada. O Senado não estava em condições de opor-se aos desejos do general, detentor do poder militar. A habilidade de Augustus - nome adotado por Octavius em 27 a.C. - consistiu em conciliar a tradição Republicana de Roma com a de monarquia divinizada dos povos orientais do império. Conhecedor do ódio ancestral dos romanos à instituição monárquica, assumiu o título de imperador, por meio do qual adquiriu o Imperium, poder moral que em Roma se atribuía não ao rei, mas ao general vitorioso. Sob a aparência de um retorno ao passado, Augustus orientou as instituições do estado romano em sentido oposto ao republicano. A burocracia se multiplicou, de forma que os senadores se tornaram insuficientes para garantir o desempenho de todos os cargos de responsabilidade. Isso facilitou o ingresso da classe dos cavaleiros na alta administração do império. Os novos administradores deviam tudo ao imperador e contribuíam para fortalecer seu poder. Pouco a pouco, o Senado - até então domínio exclusivo das antigas grandes famílias romanas - passou a admitir italianos e, mais tarde, representantes de todas as províncias. A cidadania romana ampliou-se lentamente e somente em 212 d.C. o imperador Marcus Aurelius Antoninus, dito Caracalla, reconheceu todos os súditos do império. O longo período durante o qual Augustus foi senhor dos destinos de Roma, entre 27 a.C. e 14 d.C., caracterizou-se pela paz interna (Pax Romana), pela consolidação das instituições imperiais e pelo desenvolvimento econômico. As fronteiras européias foram fixadas no Reno e no Danúbio, completou-se a dominação das regiões montanhosas dos Alpes e da Península Ibérica e empreendeu-se a conquista da Mauritânia.

Imperador Octavius Augustus.

O maior problema, porém, que permaneceu sem solução definitiva, foi o da sucessão no poder. Nunca existiu uma ordem sucessória bem definida, nem dinástica nem eletiva. Depois de Augustus, revezaram-se no poder diversos membros de sua família. A história salientou as misérias pessoais e a instabilidade da maior parte dos imperadores da Dinastia Julius-Claudius, como Caius Julius Caesar Germanicus, Caligula, imperador de 37 a 41 d.C., e Nero, de 54 a 68 d.C.. É provável que tenha havido exagero, pois as fontes históricas que chegaram aos tempos modernos são de autores que se opuseram frontalmente a tais imperadores. Mas se a corrupção e a desordem reinavam nos palácios romanos, o império, solidamente organizado, parecia em nada ressentir-se. O sistema econômico funcionava com eficácia, registrava-se uma paz relativa em quase todas as províncias e além das fronteiras não existiam inimigos capazes de enfrentar o poderio de Roma. Na Europa, Ásia e África, as cidades, bases administrativas do império, cresciam e se tornavam cada vez mais cultas e prósperas. As diferenças culturais e sociais entre as cidades e as zonas rurais que as cercavam eram enormes, mas nunca houve uma tentativa de diminuí-las. Ao primitivo panteão romano juntaram-se centenas de deuses e, na religião como no vestuário e em outras manifestações culturais, difundiram-se modismos Egípcios e Sírios. A partir de suas origens obscuras na Judéia, o cristianismo foi-se aos poucos propagando por todo o império, principalmente entre as classes baixas dos núcleos urbanos. Em alguns momentos, o rígido Monoteísmo de Judeus e cristãos se chocou com as conveniências políticas, ao opor-se à divinização, mais ritual que efetiva, do imperador. Registraram-se então perseguições, apesar da ampla tolerância religiosa de uma sociedade que não acreditava verdadeiramente em nada. O império romano só começou a ser rígido e intolerante em matéria religiosa depois que adotou o cristianismo como religião oficial, já no século IV. O século II, conhecido como o Século dos Antoninus, foi considerado pela historiografia tradicional como aquele em que o Império Romano chegou a seu apogeu. De fato, a população, o comércio e o poder do império se encontravam em seu ponto máximo, mas começavam a perceber-se sinais de que o sistema estava à beira do esgotamento. A última grande conquista territorial foi a Dácia e na época de Trajanus (98-117 d.C.) teve início um breve domínio sobre a Mesopotâmia e a Armênia. Depois dessa época, o império não teve mais forças para anexar novos territórios.

Fórum Romano, o coração de Roma - detalhe em maquete da antiga Roma.

Uma questão que os historiadores nunca conseguiram esclarecer de todo foi a da causa da decadência de Roma. Apesar da paz interna e da criação de um grande mercado comercial, a partir do século II não se registrou nenhum desenvolvimento econômico e provavelmente também nenhum crescimento populacional. A Itália continuava a registrar uma queda em sua densidade demográfica, com a emigração de seus habitantes para Roma ou para as longínquas províncias do Oriente e do Ocidente. A agricultura e a indústria se tornavam mais prósperas quanto mais se afastavam da capital. No fim do século II, começou a registrar-se a decadência. Havia um número cada vez menor de homens para integrar os exércitos, a ausência de guerras de conquista deixou desprovido o mercado de escravos e o sistema econômico, baseado no trabalho da mão-de-obra escrava, começou a experimentar crises em conseqüência de sua falta, já que os agricultores e artesãos livres haviam quase desaparecido da região ocidental do império. Nas fronteiras, os povos bárbaros exerciam uma pressão crescente, na tentativa de penetrar nos territórios do império. Mas se terminaram por consegui-lo, isso não se deveu a sua força e sim à extrema debilidade de Roma. O século III viu acentuar-se o aspecto Militar dos Imperadores, que acabou por eclipsar todos os demais. Registraram-se diversos períodos de anarquia militar, no transcurso dos quais vários imperadores lutaram entre si devido à divisão do poder e dos territórios. As fronteiras orientais, com a Pérsia, e as do norte, com os povos germânicos, tinham sua segurança ameaçada. Bretanha, Dácia e parte da Germânia foram abandonadas ante a impossibilidade das autoridades romanas de garantir sua defesa. Cresceu o banditismo no interior, enquanto as cidades, empobrecidas, começavam a fortificar-se, devido à necessidade de defender-se de uma zona rural que já não lhes pertencia. O intercâmbio de mercadorias decaiu e as rotas terrestres e marítimas ficaram abandonadas. Um acelerado declínio da população ocorreu a partir do ano 252 d.C., em conseqüência da peste que grassou em Roma. Os imperadores Aurelianus, regente de 270 a 275 d.C., e Diocletianus, de 284 a 305 d.C., conseguiram apenas conter a crise. Com grande energia, o último tentou reorganizar o império, dividindo-o em duas partes, cada uma das quais foi governada por um augusto, que associou seu governo a um caesar, destinado a ser o seu sucessor. Mas o sistema da Tetrarquia não deu resultados. Com a abdicação de Diocletianus, teve início uma nova guerra civil. Constantinus I favoreceu o cristianismo, que gradativamente passou a ser adotado como religião oficial. A esclerose do mundo romano era tal que a antiga divisão administrativa se transformou em divisão política a partir de Theodosius I, imperador de 379 a 395 d.C., o último a exercer sua autoridade sobre todo o império. Este adotou a Ortodoxia Católica como religião oficial, obrigatória para todos os súditos, pelo edito de 380 d.C.. Theodosius I conseguiu preservar a integridade imperial tanto ante a ameaça dos bárbaros quanto contra as usurpações. No entanto, sancionou a futura separação entre o Oriente e o Ocidente do império ao entregar o governo de Roma a seu filho Honorius, e o de Constantinopla, no Oriente, ao primogênito, Arcadius. A parte oriental conservou uma maior vitalidade demográfica e econômica, enquanto que o império ocidental, no qual diversos povos bárbaros efetuavam incursões, umas vezes como atacantes outras como aliados, se decompôs com rapidez. O rei godo Alarico saqueou Roma no ano 410 d.C. As forças imperiais, somadas às dos aliados bárbaros, conseguiram entretanto uma última vitória ao derrotar Átila nos Campos Catalaúnicos, em 451 d.C. O último imperador do Ocidente foi Romulus Augustus, deposto por Odoacrus no ano 476d.C., data que mais tarde viria a ser vista como a do fim da antiguidade. O império oriental prolongou sua existência, com diversas vicissitudes, durante um milênio, até a conquista de Constantinopla pelos Turcos, em 1453.

Capitólio, a fortaleza natural de Roma - detalhe em maquete da antiga Roma.

AS DINASTIAS E OS IMPERADORES DE ROMA


(27 a.C. a 68 d.C.)


(68 a 193 d.C.)


(193 a 235 d.C.)


(235 a 284 d.C.)


(284 a 307 d.C.)


(307 a 392 d.C.)


(392 a 476 d.C.)

Informações retiradas do site:
http://www.nomismatike.hpg.com.br/ImpRomano/ImpRomano.html